quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Grito Primordial ( argumento Raul la Fuente)

Daquelas lembranças tais
Que são desiguais
Essas geniais
Queria guardar jamais...mas...

Daquele primeiro vagido
Doído, nascedouro
Ar entrando, rasgando
Tomando forma e cor
E sabor
Pouco lembro...

Daquele ouvido e temido
"Menino, entra!"
Tremido e adivinhado
Desse advinha até temor
Mas não passava de amor

Daquele prenunciado
Antes do pecado
Ohhh...primogênito e só
Cheio de cheiros, e só

Daquele que fugia ao controle
Da expectativa, fininho
De surpresa e alegria

Daquele do qual nasce o fruto
Baixio e forte
Longo e até cruel

Daquele de dor, no sangue, no outro
E mesmo sem talho vosso
Dói mais no nosso

Daquele que prenuncia
A partida que já sabia
Do fruto que sempre dizia, gritando
Ciao, mainha...

Daquele grito abafado
Cheio de cuidado e solidão
De lembrança parca
E dor farta

Daquele que anuncia a liberdade
Gritado a altos brados
Solto de dentro d'alma
Ouvido por todos os lados

Daquele que chega
Por todos os ossos
Por outros sentidos
Nos ouvidos vossos

Daquele que finalmente
Liberto daquela semente
Por muitos anos latente
Rouquidão, é o que se sente

De tantos e fartos gritos
Sofridos e variados
Deles vazam pedaços
De corpos despedaçados
De almas dilaceradas

Daqueles gritos
Resta um
Primeiro
Rouco e gutural
Puro e sensual

Aquele que vida trás
Aquele que alma refaz
Aquele que não é só seu
Aquele que é feito por outro
Aquele só e unicamente teu
Aquele de prazer em transe
Aquele que ultrapassa paredes
Aquele que tira o fôlego
Aquele que dá fôlego
Aquele que é
Primordial.

Um comentário:

Haroldo Gumes disse...

Gosto de gostar do gosto de quem tem bom gosto
Inquietude sua, é a palavra.
Gostei. Beijos.